terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sobre a tradução em LE.


          Dois termos parecidos e com significados bem diferentes são tratados por Elisabeth Lavault no texto “Tradução pedagógica ou pedagogia da tradução?”, um tema que merece total credibilidade por ser em seu conteúdo um diferencial na base de métodos educativos que residem nos meios educacionais. A autora afirma que para todo estudante que aprende uma ou duas línguas estrangeiras em um colégio francês, a tradução é primeiramente sinônimo de interpretação e objeto, uma seqüência de palavras a traduzir, suprindo suas necessidades com um dicionário e um mínimo de intuição. Dessa forma se caracteriza a tradução pedagógica, como um utensílio utilizado dentro do quadro das línguas, sendo um fim e não um meio, não importando o sentido que o texto veicula, mas o ato de traduzir e as diferentes funções que ele preenche: aquisição da língua, aperfeiçoamento, controle. Elisabeth se refere a esse tipo de tradução mais como uma transcodificação, o que seria apenas uma tradução dos códigos lingüísticos. Por outro lado, a pedagogia da tradução se exercita da aprendizagem de traduzir não somente palavras, mais mensagens cujo sentido se deve transmitir integralmente dentro de uma situação real de comunicação. Aqui seria um caso onde melhor se usaria a lógica, colocando em evidencia o conhecimento prévio da língua e do sujeito.
           Aprender uma língua e aprender a traduzir são duas operações inconciliáveis? É o que dizem os professores de língua de uma parte e os tradutores de outra. Entretanto, não seria possível praticar a tradução pedagógica com mais pedagogia? Não podemos enriquecer a aprendizagem da língua, a aprendizagem da tradução e vice-versa?
          Durante o século XIX e boa parte do século XX, um dos maiores métodos nas didáticas das línguas consistia em fazer o aluno aprender de cor as listas de vocabulário e de regras de gramática para depois traduzir laboriosamente as passagens tiradas das obras dos autores. Os professores faziam vários usos da tradução pedagógica, um dos modos mais usados por eles é o que ficou conhecido como tradução explicativa, onde na maioria das vezes dentro de um curso o professor traduz uma palavra rara, aquela mais citada dentro da tradução, para evitar uma perífrase que prejudicaria o ritmo do curso. Nesse tipo de pratica de tradução o aluno entende que se traduz para melhor explicar o funcionamento da língua estrangeira.
          O exercício da tradução que predomina atualmente é “a tradução dos textos previamente estudados” dentro do curso. Esse exercício é menos estudado no colégio, onde se traduz pouco e geralmente se faz apenas exercícios de diálogos nos manuais. Os professores são os que mais se lembram das traduções, com o objetivo, sobretudo, de controlar a compreensão dos alunos, sendo esse tipo de tradução feita mais oralmente e coletivamente. Dentro desse quadro a interpretação torna-se um exercício difícil dentro das leis de comunicação. O aluno não possui geralmente a competência lingüística suficiente para compreender o texto e muitas vezes ignoram as palavras chave, dando ao texto outro sentido. Nesse momento algum elemento extralingüístico pode vir ajudar o aluno.

          Muitos dos professores de colégio foram formados em uma época onde a tradução era banal, ele necessariamente aprendia a pensar dentro da língua estrangeira. Dessa forma eles questionavam os estudantes se eles atentavam para uma tradução literal ou para uma tradução mais livre, tendo cada professor seu ponto de vista sobre isso. Já que atualmente a tradução tem uma nova aceitação em didática das línguas, ela tem necessidade de refletir a problemática da tradução, de redefinir a tradução pedagógica, de adaptar a evolução das metodologias e da reaproximação, justamente, dessa pedagogia da tradução. A pedagogia da tradução não esta nos colégios onde se pratica, mais dentro das escolas profissionais que formam os tradutores e interpretes. Aqui, se fala de uma tradução interpretativa, onde segundo Seleskovitch “o objeto da tradução não é a textura de que é feita a língua, mas o sentido que ela procura passar”. Em primeiro lugar o que importa é o sentido dentro da totalidade, a fim de poder comunicar a utilização de elementos de outro sistema lingüístico. O sentido não se reduz aos significados dados pela língua, ele se constrói assim a partir do contexto verbal e cognitivo e de todos os parâmetros extralingüísticos, que concerne o autor, o destinatário da mensagem, as condições de enunciação, as implicações, etc.
          A teoria interpretativa da tradução se funda sob uma teoria de sentido ligado a analise do discurso, sendo sua base a exegese do texto. Em segundo lugar a teoria interpretativa implica na formulação de sentido, que implica assim no ato de criação, uma vez que o tradutor pode procurar equivalências textuais inéditas que não se encontram em nenhum dicionário. Dessa forma a pedagogia da tradução tem por objetivo desenvolver uma dupla competência: a compreensão e a re-expressão. Esses são exercícios específicos de um saber fazer que deva ser ensinado em todo método de análise. Os professores de colégio, em geral, ignoram essas técnicas de tradução, considerando que aprender a traduzir não entra em suas funções. Alguns seguem metodologias próprias na didática das línguas e não na didática da tradução.
         Estas abordagens que estão se desenvolvendo na didática das línguas estrangeiras apareceram nos colégios depois dos anos 80, elas privilegiam a aquisição de uma competência de comunicação fundada sob a análise e ativação dos atos de fala, adaptando-se as necessidades dos alunos. Dessa forma a situação de comunicação é a chave, ela implica uma interpretação de enunciados que está próxima da análise praticada em didática da tradução. Admite-se que a aprendizagem de uma língua estrangeira passa necessariamente pelo filtro da língua materna o que tende a rever a tradução como um ato de comunicação em si. Um dos grandes avanços da tradução se deve a valorização da compreensão dos enunciados. A competência lingüística e a produção escrita possuem cada um seu valor, mais é a compreensão que revela o quanto um aluno, incapaz de se exprimir corretamente, pode obter pontos apenas pela compreensão. Essas abordagens favorecem assim uma utilização positiva dos enunciados e tendem a desenvolver a competência da comunicação mesmo em detrimento da gramática, privilegiando assim a espontaneidade e a criatividade dos alunos, ela ajuda os alunos a se livrar das estruturas e das palavras para se concentrar sob o sentido a ser comunicado. Todos os professores sabem que existe uma forte questão sobre a tradução entre os alunos. Muitos professores têm a tradução como uma pedagogia do encorajamento, onde a tradução é uma bóia de salvação para aqueles alunos que tem dificuldades com os textos estudados e quanto aos mais dotados ela é um incentivo a participação na aula, tornando esta algo mais dinâmico, principalmente quando as traduções são feitas de forma oral. A tradução é incontestavelmente um objeto de aprendizagem da língua estrangeira, é o momento privilegiado do curso onde todos estão em contato: o professor pode guiar os alunos a uma reflexão comparativa, fazendo aparecer às analogias e as diferenças entre as duas línguas.
          O exercício da tradução ajuda o professor a apreender cada vez mais os conhecimentos e funcionamentos lógicos e analógicos dos alunos. A tradução oferece ao professor um meio de auto-avaliação de seu curso. Uma das funções essências da tradução em classe é o trabalho sob a língua materna, ela permite colocar em relevo as estruturas dessa língua e as lacunas, tanto lexicais quanto gramaticais, dentro da língua mãe dos estudantes. Assim, é igualmente possível considerar a tradução de maneira mais pragmática, como um saber-fazer útil para o futuro. É interessante mostrar que uma boa tradução é aquela onde se situa o sentido do texto, para isso o aluno pode adotar um tipo de tradução pedagógica mais próxima da tradução interpretativa.
          Dentro de um curso de língua estrangeira a tradução não poder ser o meio essencial de ensino, ela ficará limitada a uma pequena parte do curso. Os exercícios de tradução não devem ser eliminados, mais eles devem ser o mais oral possível, sempre ligado a uma explicação aprofundada do texto. O objetivo é controlar a apreensão do texto e não a compreensão de cada palavra. Os estudantes hipnotizados com as palavras querem traduzi-las literalmente com a ajuda de um dicionário bilíngüe. Ele deverá compreender que para bem traduzir, é necessário ser fiel ao sentido do texto e muitas vezes infiel as palavras que ele possui. É necessário mostrar aos alunos que se pode traduzir sob vários níveis: compreensão, interpretação, etc.; estes exercícios são eficazes porque mostram que a tradução é uma operação dinâmica, que não se limita as equivalências cristalizadas dos dicionários. É, sobretudo, a partir dos diálogos que esses exercícios melhor funcionam; dessa forma como devemos fazer para traduzir os textos mais longos? A princípio se deve praticar um exercício chamado deverbalização, que seria o aproximado a “falar do texto” e fazer surgir à argumentação dentro da língua materna; outro exercício ou técnica é a visualização, onde o estudante se vê dentro de uma dada situação. Nos textos longos sobre a abordagem comunicativa o professor pode desenvolver um tipo de analise de texto sob a compreensão, com a condição de tratar de um sujeito conhecido para os alunos. Para concluir a tradução desenvolve um papel primordial nos línguas maternas, estando o retorno a boa tradução inscrita nas mais recentes metodologias da tradução.

CAPELLE, Marie – José et alii. ‘’ Retour à la traduction’’. Le Français dans le monde, n° spécial aôut- septembre 1987, p.119-127.

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